O Corinthians passa por um momento de mudanças nos bastidores e mais um capítulo veio à tona nesta quinta-feira (21). A GSP Holding, empresa interessada em aportar US$ 1 bilhão ao Corinthians, confirmou a iniciativa por meio de uma nota oficial. No entanto, a companhia está cercada de contradições que foram desvendadas pelo jornalista Demétrio Vecchioli.
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A empresa citada pelo candidato à presidência do Corinthians, André Castro, como responsável por investir a quantia equivalente a R$ 5,43 bilhões (na cotação atual) no clube levanta sérias dúvidas sobre sua real capacidade financeira. Embora o executivo tenha exibido uma carta assinada pela GSP Bank garantindo o aporte, documentos obtidos revelam inconsistências no patrimônio declarado da companhia e indícios de que os ativos apresentados são, em grande parte, de difícil ou impossível liquidez, como mostrou Vecchioli, em publicação nesta sexta-feira (22).
A Sporting News resume todos os problemas da GSP:
GSP não é banco: trata-se de uma factoring
Apesar do nome, a GSP não é reconhecida como banco. A empresa atua como factoring, comprando duplicatas de empresas em troca de pagamento imediato, sem regulação do Banco Central. Mas, em vez de lidar com títulos comuns, a companhia declara possuir créditos e ativos altamente questionáveis.
O que é uma factoring?
A factoring é uma empresa que compra títulos de crédito de outras companhias, como duplicatas ou notas promissórias, oferecendo dinheiro imediato em troca de receber esses valores no futuro. Na prática, funciona como uma antecipação de receitas: uma fábrica que tem a receber um pagamento em 90 dias, por exemplo, pode vender esse título para uma factoring com desconto, ficando com o dinheiro na hora. Diferente dos bancos, esse tipo de operação não é regulado pelo Banco Central e não envolve empréstimos com recursos de terceiros, mas sim a compra e gestão de créditos — o que a torna um modelo de negócio paralelo ao sistema financeiro tradicional.
Papéis da GSP valem muito, muito menos do que dizem
Entre os papéis que a GSP afirma ter a receber, estão oito Bonos Oro emitidos pelo Paraguai em 1935, durante a Guerra do Chaco. Esses documentos foram emitidos como promissórias pelo governo paraguaio, mas nunca pagos. Hoje, são vendidos em sites como o Ebay por cerca de R$ 650 cada. Ainda assim, a GSP os registra como créditos de R$ 583 milhões.
Outro exemplo são os chamados títulos Águia Negra, emitidos pelo Tesouro mexicano em 1843. A empresa avalia cada um desses papéis em R$ 200 milhões, totalizando R$ 1,56 bilhão. No entanto, documentos semelhantes são encontrados no mercado por valores próximos a R$ 1 milhão cada, ainda que necessitem de perícia para comprovar autenticidade.
Mina de Ouro e Eletrobras: valores superestimados
A GSP também declara possuir uma mina de ouro em Xinguara (PA), com valor estimado em R$ 3 bilhões. O problema é que não há registro oficial da existência de tal mina, e, mesmo que houvesse, a exploração mineral é propriedade do Estado, cabendo ao dono da terra apenas royalties.
Outro ativo listado são títulos da Eletrobras da década de 1960, referentes a empréstimos compulsórios cobrados dos consumidores. A empresa afirma que cada título valeria mais de R$ 15 milhões, somando mais de R$ 1 bilhão, embora especialistas indiquem que esses papéis deveriam ter sido resgatados há décadas.
Balanço revela patrimônio de quase R$ 1 trilhão
Segundo o último documento disponível — um “balanço (cete)” de 2018 —, a GSP declarou ter R$ 949,6 bilhões em ativos. No entanto, desse valor, apenas R$ 1,7 milhão estava em caixa ou disponível em bancos. A quase totalidade do patrimônio seria composta por duplicatas a receber e ativos de difícil comprovação.
Com base nos documentos analisados, a credibilidade da GSP como investidora de US$ 1 bilhão no Corinthians é altamente questionável. O patrimônio declarado mistura papéis históricos, ativos de valor inflado e títulos sem liquidez comprovada, o que coloca em dúvida qualquer promessa de aporte desse porte no clube.
Resumo de todas as incertezas sobre a GSP
Promessa de investimento
O candidato à presidência do Corinthians, André Castro, afirmou que a empresa GSP Bank investiria US$ 1 bilhão no clube.
Exibiu uma carta da empresa garantindo o aporte.
Natureza da empresa
Apesar do nome, a GSP não é banco; trata-se de uma factoring.
Factoring compra títulos de crédito (duplicatas) de empresas, não é regulada pelo Banco Central e não pode operar como instituição financeira.
Ativos questionáveis
Bonos Oro do Paraguai (1935): GSP declara R$ 583 milhões, mas papéis semelhantes são vendidos no Ebay por cerca de R$ 650.
Títulos Águia Negra do México (1843): avaliados pela GSP em R$ 200 milhões cada (R$ 1,56 bilhão no total), mas negociados no mercado por cerca de R$ 1 milhão cada.
Mina de ouro em Xinguara (PA): empresa afirma que vale R$ 3 bilhões, mas não há registro da mina, e exploração mineral pertence ao Estado.
Títulos da Eletrobras (anos 1960): GSP afirma que somam mais de R$ 1 bilhão, embora sejam considerados créditos prescritos há décadas.
Balanço de 2018
Documento (“balanço cete”) mostra R$ 949,6 bilhões em ativos.
Apenas R$ 1,7 milhão estava disponível em caixa e bancos.
A quase totalidade do patrimônio declarado era composta por duplicatas a receber e ativos sem liquidez clara.
Conclusão
A credibilidade da GSP como investidora é altamente questionável.
O patrimônio declarado mistura papéis históricos, ativos de valor inflado e títulos sem comprovação real.
A promessa de aporte bilionário no Corinthians carece de respaldo financeiro sólido.